Itinerário de suas peregrinações
2. Em Montevidéo, no Paraguai, tristes realidades
(Ipeg02)
“Depois de minha volta ao Brasil, vindo de Montevidéu, em 8
de Março, e chegando em 19 do mesmo, no famoso vapor São Francisco, que depois
queimou-se, fato que determinou providências em que o governo deu prova de
excesso de patriotismo... tomei conta de uma Igreja como Vigário, onde estive
um ano exato. Durante esse tempo, nutri esperança de criar um estabelecimento”.
“Antes da minha viagem para Montevidéu, já eu tinha feito
outra no interior das províncias de São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul e Rio
de Janeiro. Já então meu tirocínio era criar um estabelecimento pio, onde não
só se pudessem salvar essas infelizes filhas dos verdadeiros patriotas do
Brasil, dos perigos e do horror das misérias e desgraças em que uma guerra
desastrosa as havia de lançar.
Encontrava sempre uma tal desproporção na educação! Não via
senão uma educação que, em vez de preparar condignamente as infelizes órfãs,
tecia-lhes um futuro cheio de dor, dando-lhes uma educação inadequada a sua
condição.”
“Os tempos se passaram... O anjo da morte passava sobre
todos os telhados, anunciando cada dia a orfandade em novas famílias
desvalidas! O luto enegrecia as entradas dos templos e as lágrimas lavavam os
pavimentos. As choupanas se fechavam e as desgraçadas viúvas, cobertas de
andrajos, levando diante de si suas tenras filhinhas, apresentavam-se às portas
dos taberneiros para solicitar-lhes uma fatia de pão! Meu Deus! Quantos
infortúnios eu presenciei! Quantos insultos àquelas pobres viúvas!... Quantas atrocidades
àquelas infelizes vítimas ... por orgulho ou capricho de um malvado! Quem sabe
quantos outros horrores ocasionados pela fome e pela miséria! Não! Disse eu,
não é possível conter os impulsos do meu coração! Não há para mim maior
sacrifício. Não vou salvar toda essa porção frágil e desafortunada da
humanidade; uma só infeliz que, com a graça do Senhor e proteção da Augusta
Virgem do Amparo, nossa Mãe e Protetora, eu possa salvar do ameaçador
naufrágio, já me será uma inexcedível consolação”.[1]
Fonte: Padre Siqueira
Escritos, crônicas e outros testemunhos
Ir. Rossana Espindola da Silva, CFA
Ir. Neli do Santo Deus, CFA
[1]
. Memorial de Viagens, Sala
Histórica, PS-1 – A.01.16

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